
A magia que flui por aqui está presente em todos os mares de Garopaba.
Muitos já descobriram isto há mais de quarenta anos e cansando de sempre voltar começaram a cada vez mais a ficar. Para somar vidas aos seus dias. Sou um destes felizardos.
Mais gente veio para começar ou refazer sua vida profissional por aqui. Muitos nativos, fazendo o que sabiam, com espírito empreendedor imaginaram o futuro a frente são agora fortes empresários. Hoje dão vida econômica à região.
Os mares são mais de dez por aqui. Gamboa, Siriú, Central, Preguiça, Silveira, Ferrugem, Barra, Ouvidor. Vermelha, Luz, Rosa, Ibiraquera já estão em Imbituba mas fazem parte da “Grande Garopaba”.
Cada um destes mares tem características próprias e cada um tem como “plus” o “canto norte” ou o “canto sul”. Você escolhe. Tem mar para todos os gostos e prazeres. Com sol para os veranistas, tem ventos formando ondas de tamanhos e humores variados para os surfistas e mar qual grandes piscinas para as crianças e tranqüilidade dos pais. Muitos destes mares têm água doce logo ali ao lado e de tempos em tempos barras se abrem liberando as lagoas internas cheias que se esvaziam no grande mar.
Por onde se olhe os morros estão logo ali contornando as baías e proporcionando locais fantásticos para as casas e pousadas que surgem. Cada local, cada situação é diferente da outra. Difícil comparar e até injusto fazê-lo. Também os pescadores artesanais são presença constante fornecendo imagens inusitadas aos olhares sensíveis. Gaivotas e albatrozes são presença constantes, dando vida aos céus.
Até as baleias descobriram que são totalmente bem vindas depois de séculos de matança. Hoje aqui voltam para parir, novamente acasalar e cuidar de seus filhotes. Sua visão diretamente das praias é privilégio de quem aqui mora ou quem pra cá vem no fim do inverno e começo da primavera.
Garopaba tem seres humanos por aqui há mais de quatrocentos anos. Hoje apesar da rapidez com que se desenvolve, orgulhosamente tem inúmeros locais, matas, dunas e praias totalmente preservadas e protegidas. Junto com isto o orgulho de descendentes de uma cultura além mar que está sendo cultivada e preservada. Festas Populares e Religiosas feitas pelo povo e para o povo são motivo de satisfação e prazer também para os que como eu amam e adotaram a cidade até no nome.
A magia desta região está presente em todos locais e hoje já quase no fim da primeira década do século vinte e um Garopaba está revelando mistérios que zelosamente escondia. Talvez sabiamente esperando quem soubesse valorizar o que mais ainda tem a revelar.
RICARDO garopaba BLAUTH

Conheci Garopaba em 1967, a serviço do governo do Estado de Santa Catarina, para fotografar as obras públicas.
Tinha 40 anos, era 1º sargento de comunicações do Exército em Porto Alegre, e havia regressado do Canal de Suez, onde integrei o Batalhão de Suez das Tropas de Paz da ONU na Faixa de Gaza (Palestina). Como estava em férias, aceitei o convite. Na época o acesso pela SC-434 não existia - era uma estrada de chão batido - e a viagem pela BR-101, a partir de Torres, era feita através de estradas secundárias, o que demandava muitas horas no volante. Cheguei aqui para fotografar a sede da Colônia de Pescadores. E, ao ver a beleza do mar e a garotada jogando bola na beira da praia ao entardecer, me apaixonei... Foi amor à primeira vista.
Desde então, eu e minha família passamos as férias seguintes aqui, até que me reformei do exército e eu e a Théca viemos morar definitivamente, há mais de vinte anos. As horas exaustivas de viagem pela BR 101 eram compensadas pela expectativa de ver as belezas intocadas de Garopaba e o bem receber de sua gente simples e amiga.
Naquela época, o carro era abastecido na bomba de gasolina manual de Iris Lobo, dono do único hotel da cidade que devia ter uns 9 mil habitantes em todo o município. Tudo era muito simples, e poucas casas tinham luz elétrica e água encanada. A praia era uma beleza e muito segura para os nossos quatro filhos que adoravam passar as férias aqui. A água era espetacular e caminhar nas dunas e pescar no Macacu era muito divertido. Os nativos nos olhavam com curiosidade.
Garopaba vivia praticamente em torno do Centro Histórico. O Armazém do Cunha tinha de tudo, era muito típico e também havia o Bar do Lucas, o único a vender sorvetes. A pescaria era abundante, mas havia pouco dinheiro circulando na cidade, e a troca era uma prática comum. Trocava-se peixe por farinha, leite, bananas... Na zona rural, as plantações de mandioca, feijão e criação de gado.As casas eram simples, os telhados feitos de barro, sem forro, e as cortinas substituíam as portas internas. Quase não havia aparelhos de TV, alguns tinham rádio, e o fogão era à lenha. Fiz muitas fotos que foram publicadas no Correio do Povo e Folha da Tarde, ilustrando os textos do jornalista Ribeiro Pires. Especialmente os gaúchos e leopoldenses vieram para cá por conta das reportagens publicadas na imprensa gaúcha. Os hippies só chegaram depois. Apesar da simplicidade, os nativos não viviam em desconforto: pela manhã, tarrafeavam o peixe que alimentava a família e assim iam levando a vida neste paraíso intocado dos anos 60.
Manfred Hübner
* Este e outros artigos integram o livro a ser publicado sobre a história de Garopaba, escrito a partir dos relatos de Manfredo Hübner.